Minhas Ilhas do Riso: relato de Marton Maués

Viajar é sempre bom. Viajar com um grupo, melhor ainda. Com um grupo de teatro, uma maravilha. Tudo se completa quando a viagem com o grupo de teatro é para pequenas comunidades. É assim que está sendo essa nossa aventura nas ilhas: completa.
Descobrimos as ilhas, seus caminhos de beleza. Descobrimo-nos a nós mesmos. Desbravamos nossas ilhas, e como as temos. E assim vamos nos superando.
Melhor de tudo é o prazer do encontro com pessoas tão distantes de nós, tão ilhadas de nós. E como são bonitas as crianças! Como são alegres as crianças! Como são receptivas, doces, as crianças! E como tem criança nas ilhas. As crianças têm sido nossa maior platéia, os adultos, mais tímidos, ficam distantes. Alguns poucos se aproximam, querem conversar. As crianças chegam junto. Querem nos ver de perto, ver nossa transformação… e de repente o palhaço começa a brincar com elas, a provocar, e elas entram de cara no jogo e riem e se divertem. Sem certa agressividade que vemos – e sentimos – nas crianças da cidade.
Mas vamos às ilhas!

Outeiro (14 de agosto, sábado)
De ônibus pra Outeiro, na maior diversão. Primeira viagem, coração apreensivo. Como será, vai ser em um centro comunitário, afastado do centro da ilha, com suas praias agitadas. Chegamos, susto. O lugar não era adequado, e não havia ninguém. Será que aconteceria o espetáculo? A cabeça agitava um plano B. E lá fomos eu e Cleice verificar se havia outro espaço, um lugar aberto, um gramado, quando passamos uma igreja e encontramos ao lado um salão aberto. É aqui, dissemos. Procuramos contato com os moradores para saber de algum responsável, era sábado, igreja fechada. Logo nos informaram de uma senhora e outra e outra mais adiante. O elenco se aprontando e Cleice e Alessandra pegaram a Kombi do integrante do centro comunitário e foram falar com a tal senhora responsável. Logo ela estava lá, solícita, pronta a nos atender com toda a atenção. Abriu a cozinha do espaço, os banheiros. Cedeu-nos energia para o som, ajeitou bancos. E os palhaços foram chegando, ocupando o espaço e a criançada tomando seu lugar, muitas mães e senhoras. Poucos homens. O espetáculo começou animado, alegre. Divertíamos-nos e o público também. Muitos risos: o Ilhas de Riso começava.
Os agradecimentos emocionaram. Prometemos voltar outra vez. Vontade não falta. Ouvi de um comunitário que aquele foi o primeiro espetáculo ali apresentado. Uma família veio falar comigo, dizendo que nos acompanha sempre. Estavam em uma Kombi também. Perguntei se não moravam na ilha. Disseram sim, moramos, mas em outra localidade. E solicitaram uma ida nossa no bairro deles. Quem sabe a próxima?

Combu (20 de agosto, sexta-feira)
Para ir ao Combu pegamos primeiro um ônibus, na Casa dos Palhaços. Sol a pino, uma da tarde. Mas a alegria da primeira viagem nos acompanhava. Divertíamos-nos. O motorista, Julio, era engraçado e comunicativo. Recebeu-nos com clássicos da música brega, que a um elogio meu e certo interesse, me foi presenteado. O cd está tocando em meu carro desde então. E é ótimo.
Depois do pequeno trajeto de ônibus, chegamos ao terminal fluvial da pç. Princesa Isabel, na Condor, ao lado do lendário Palácio dos Bares. O barco ainda não estava lá. Esperamos um pouco e lá vem o popopô. Não era o barco contratado. Ficamos sem saber se dava ou não o material. Olhei e disse, dá sim, vamos nessa. Carregamos tudo e lá fomos nós, no Luz Divina. Viagem calma, gostosa, o rio bonito de se ver, barcos passando aqui e ali. A cidade ficando se mostrando pelo rio, sujeira, lixo, miséria e os prédios saltando ao longe. Atravessamos, entramos em um furo e, mais adiante, desembarcamos na Maloca Sabor da Ilha, do seu Ailton – ele nos ajudou a organizar a programação.
Fomos escolher o lugar, e nos deparamos com um quintal, cheio de árvores. Olha daqui, dali, escolhemos um espaço entre dois açaizeiros. Montamos o cenário e me sentei em um dos bancos pra olhar como estava. De repente senti uma esquadrilha negra pousar feroz em meu braço esquerdo. Carapanãs vorazes me atacaram. De repente sentimos o drama: não dá.
Saímos de lá e fomos para frente da maloca. Uma espécie de trapiche grande de tábuas, na beira do rio. Ao fundo um açaizeirozinho, meio tombadinho, e mais além, meio borrados, os prédios de Belém – Combu é uma ilha próxima, bem em frente aos bairros do Guamá e Condor. Que paisagem! Ao lado, no rio, vezenquando passavam barquinhos e canoas. As crianças chegaram. Não eram muitas. Alguns adultos, uns jovens da cidade, alguns parecendo ser de outras paragens chegaram ao começar o espetáculo. Todos se divertiram, e nós também. Uma cena incrível foi um rapaz, parado em uma canoa no meio do rio, a dançar ao som das canções do espetáculo. O final foi uma grande emoção, com a criançada brincando e querendo tirar fotos com os palhaços.
Na volta a belezura do sol se derretendo na água e a música monocórdica e melancólica do barco, agora sim, o Lírio do Vale do Combu.

Cotijuba (21 de agosto, sábado)
Apresentação de manhã, tivemos que acordar cedo. Muito cedo. Joyce e Romana dormiram em casa, mais central. Pegamos o barco no Ver-o-Peso. Ficamos temerosos, pois achamos o barco pequeno, a viagem era longa e às vezes joga demais – alguns de nós passamos por um sufoco certa vez ao voltar de lá, depois de uma apresentação meio frustrada pelo IFNOPAP.
Mas decididos, encaramos o barco e a baía do Guajará e zarpamos para a ilha de Cotijuba. A cidade foi ficando pra trás e o encanto das águas foi nos acalmando. Nossas brincadeiras também e até nossas composições musicais: “Água… Guamá!” Eu, Vinícius e Ramon nos empenhamos na criação, mas não agradamos e fomos motivo de muita encarnação. E diversão. “Lindo, lindo, somos palhaços!” E o palhaço ri de si mesmo. Rimos.
Chegamos uma hora e meia depois. Cotijuba é uma ilha bonita. Existe, na entrada, as ruínas de uma antiga prisão que foi também uma escola (será que esta minha informação está certa?). É bonito, tem umas charretes engraçadas, puxadas a cavalos e burros que levam os visitantes às praias. E uns bondes puxados a pula-pula, que realmente pulam muito na rua esburacada. Fomos num desses. E pulamos tanto e rimos de tanto pular.
Cotijuba é uma ilha bonita, de praias bonitas, mas bem que podia ser mais bem cuidada.
Nossa apresentação foi organizada pelo grupo de Mulheres da Ilha. Em um salão ao lado da igreja de São Francisco de Assis. A criançada já nos esperava, e outras mais foram chegando. Algumas mães também apareceram, mas não muitas. Sábado é dia de trabalho na ilha, que vive de turismo, em função de suas praias bucólicas. A apresentação foi boa. Como sabemos que o espetáculo tem um texto mais pesado para as crianças, apostamos nas possibilidades corporais cômicas dos palhaços para aliviar este peso. Ampliamos isso e deu certo. A criançada curtiu, mas o horário chamou algumas mais cedo para o almoço.
Nossa volta foi alegre, no pula-pula, e tranqüila no barco. Cheguei meio mareado, mas feliz. O mundo balançava um pouco, e fui pra casa no balanço das ondas da Baía do Guajará.

Ilha das Onças (22 de agosto, domingo)
Mais um dia tendo que acordar bem cedo. Pegamos o barco novamente no Ver-o-Peso. De cara não gostei do barco e nem do barqueiro. Grosseiro, ele criou certa tensão. Resolvi ficar calmo e afastado, até que resolvêssemos se dava ou não para ir. Conseguimos acomodar nossas tralhas e a todos. E lá fomos nós. Quarenta e cinco minutos de popopô, atravessando a baía e entrando em dois furos até chegarmos na Comunidade de São Raimundo, no furo Madre Deus. Domingo de festa do santo, comunidade reunida, salão da igreja enfeitado de balões coloridos, a missa ainda não terminara. Fomos muito bem recebidos, alojados na escola da comunidade onde tratamos logo de nos vestir. Não podia haver atraso, a saída de lá não podia ultrapassar uma hora da tarde, sob o risco de termos que ficar e voltando somente no dia seguinte: o rio seca demais e não tem como sair dos furos.
Algumas crianças se aproximaram, queriam ver os palhaços se vestindo. Eram alegres e educadas. O lugar é muito bonito. Muito verde. As criações andavam por baixo das pontes e casas: galinhas, porcos. Era a festa das crianças e depois da missa ganharam sanduíches e guloseimas. Uma animação danada.
A apresentação começou com um bom pique. A platéia animada ria. Parecia estar entendendo tudo, todas as palavras e situações. Isso me chamou muito a atenção. Mas ao mesmo tempo, eram dispersivos. Uma senhora ao lado, chamava aos berros uns garotos para assistirem. Uns senhores soltaram várias vezes, no meio do espetáculo, foguetes ruidosos. Outro, para dar um aviso a alguém lá longe no trapiche, veio por trás de onde estávamos e gritou muitas vezes. Para eles isso era natural, uma coisa não impedia a outra. O espetáculo fazia parte da festa e a festa era deles. Valia rir, falar alto, comer, distribuir pipoca às crianças no meio das cenas… e nós, sem outra saída, embarcamos no jogo deles. E “bagunçávamos” a estrutura do espetáculo, trazendo aquela festa para dentro da cena.
A comunidade, depois da apresentação, nos ofereceu um almoço de açaí com charque frito e camarão. Nos lambuzamos na comilança. O carinho recebido foi muito grande. Eles mesmos embarcaram nossas coisas, enquanto comíamos. Parti de lá emocionado, via alegria nos olhos das senhoras e senhores, das crianças.
Espero voltar à ilha das onças novamente.

Marton Maués
24/08/2010

ps: Não tivemos um grande público, como às vezes temos em Belém e até em outras cidades do interior, mas me pergunto: que medida de grandeza, que instrumento de mensuração utilizar nestas horas?

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