“Das vantagens de ser palhaço”, por Marton Maués

Para comemorar o dia de hoje, 10 de dezembro, DIA DO PALHAÇO, publicamos aqui um texto escrito pelo nosso diretor Marton Maués. Boa leitura!

DAS VANTAGENS DE SER PALHAÇO

Marton maués

Ao voltar em dezembro do ano passado do Anjos do Picadeiro, evento internacional que reúne palhaços do mundo inteiro no Rio de Janeiro, criado pelo Teatro de Anônimo, me deparei com uma crônica de Clarice Lispector: Das vantagens de ser bobo. Cada linha que lia, vislumbrava aquele bando de palhaços vistos dias atrás. Só a senhora das palavras para, em poucas linhas, retratar tão bem o ser que venho estudando há tanto tempo em grossos livros, pesquisas exaustivas, dissertações, teses.

Aproveitando de pronto o nome do evento, tasco esta: – “Os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu” (Lispector, 2010, p. 54). Sabia ela já, que palhaços são anjos, dentro e fora dos picadeiros.

Palhaços são bobos, “sacerdotes da bobagem”, como quer Maria Alice Viveiros de Castro (2005), e é a bobagem a matéria prima que manipulam para nos fazer a todos rir às fartas, amenizando-nos o peso da existência, dando-nos consciência de nossa transitoriedade. Vivemos em um mundo que nos empurra sempre para a vitória, seja lá o que isso queira dizer. Embarcamos cegos nesta aventura de vida. Temos que vencer, sermos melhores em tudo. Como Fernando Pessoa, nunca conheci quem tivesse levado porrada. Mas o palhaço vem e apregoa que estamos nesta vida para perder (Libar, 2008) e é exatamente a consciência dessa perda que nos fortalece, nos alenta, nos faz chutar o balde quando está para transbordar. E ver a água se espalhar e o balde voar para os céus é um verdadeiro espetáculo!

-“Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.” (Lispector, 2010, p. 53)

Nós, palhaços, enfrentamos o mundo de peito aberto: ser palhaço nos liberta, transforma-nos em seres criativos, tranqüilos. Levamos pontapé no traseiro e rimos disso. Caímos e nossa queda faz ver aos outros quão humanos somos todos. Ensina-nos Clarice: – “Os espertos estão sempre atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos. E estes os vêem como simples pessoas humanas” (Lispector, 2010, p. 53). Mais clarividência: – “O bobo ganha liberdade e sabedoria para viver” (idem).

A vantagem de ser palhaço é ter boa-fé, não desconfiar, meter o nariz vermelho em tudo, com absoluta tranqüilidade, mesmo que isso lhe custe caro. E daí? Ele não tem medo de ser ludibriado, quer jogar com o coração, compartilhar. Ele vê grandeza nas menores coisas. Cai, e ri. Levanta, cai de novo e, de novo, ri. Cai na gargalhada nos levando junto com ele. Ensina-nos Lecoq: “O palhaço é aquele que ‘faz fiasco’, que fracassa em seu número e, a partir daí, põe o espectador em estado de superioridade. Por esse insucesso, ele desvela sua natureza humana profunda que nos emociona e nos faz rir” (2010, p. 216).

O palhaço quer realizar grandes feitos, mas se encanta com as pequenas coisas que encontra no meio do caminho, como a criança que ganha um brinquedo e o põe de lado para brincar com a caixa, o invólucro.

– “O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo nem nota que venceu” (Lispector, 2010, p.54).

O palhaço dá a cara à torta; dá a torta também que lhe acertará a cara. A outra face? Diz-nos Clarice: “Se Cristo tivesse sido esperto não morreria na cruz”. Era um de nós?

Francisco de Assis, ao que parece, era. Pelo menos é o que nos diz Maria Alice Viveiros e Castro (2005), ao afirmar que o santo se intitulava jogral do Senhor (jaculatores Domini) o que, para ela, poderia ser traduzido hoje para palhaço do Senhor. A pesquisadora completa:

Ele sempre recomendou a seus discípulos que tivessem um rosto risonho (vultus hilaris) e sua primeira regra dizia: “que eles não se mostrem exteiormente tristes e sombrios hipócritas, mas que se apresentem felizes ao Senhor, alegres e agradáveis como convém!”. Ficaram famosas as sessões de “riso solto” a que se entregavam os jovens franciscanos em seus conventos e os sermões de frades, considerados por muitos como verdadeiras palhaçadas. (CASTRO, 2005, p.31).

“A crônica clariciana, no entanto, avisa-nos: – “não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil.” Essa confusão é comum entre os cada vez mais crescentes aspirantes a palhaço. A arte do palhaço exige trabalho acurado, domínio do corpo e de suas possibilidades cômicas, conhecimento de sua história, do trabalho dos grandes mestres, de suas técnicas, suas gags. Não basta colocar uma bolinha vermelha no nariz de esponja, plástico ou látex e fazer micagens e tolices como uma criança mimada. O palhaço não tem medo de ser ridículo, sabendo utilizar este componente de seu ser com maestria.

O palhaço paulista Hugo Possolo, em sua crônica Matador de Palhacinhos, detona os incautos e aproveitadores que se utilizam de certos artifícios, que de certa forma caracterizam os palhaços, e invadem festinhas infantis, hospitais, lojas e ruas. “Qualquer idiota pode por uma roupinha espalhafatosa e ir pra frente de uma loja anunciar promoção. Se souber usar pernas-de-pau então, é o bicho! Dá o ar de que o cidadão domina alguma técnica” (Possolo, 2009, p.149). Mas ao final, dá a dica: “quem quer fazer rir, deve saber o que tem em si de ridículo, mas principalmente, buscar o que a humanidade tem de ridículo” (idem, p.152).

O palhaço e pedagogo espanhol Jesús Jara diz que o palhaço  “age  segundo sente e sente segundo vive”, acrescentando algumas características deste fascinante personagem: ser sempre autêntico, sincero e espontâneo; olhar claro como um espelho, no qual nos vemos refletidos; mostrar suas intenções abertamente, mesmo quando tenta enganar; possuir riqueza expressiva e pessoal. O palhaço quer se comunicar e para isso rompe todas a barreiras que o impedem de chegar ao outro – no teatro, pulveriza a chamada “quarta parede”. Ele é terno e, se exagera, o faz devido à paixão com que se relaciona com as coisas e as pessoas. Não se prende a nada,  passa de um estado emocional a outro: chora e logo em seguida, por um motivo fútil qualquer, cai na gargalhada.

Vale perscrutar a crônica clariciana, recolhendo dicas precisas: – “Ser bobo é uma criatividade e, como criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.” E mais: – “Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham da vida” (Lispector, 2010, p.54). O palhaço possui uma lógica própria, que parece revirar o mundo de cabeça pra baixo.

– “Bobo é Chagall, que põe uma vaca no espaço, voando por cima das casas.” (idem, p.55)

Para o palhaço uma imagem vale mais que mil palavras e se alguém diz: “Cai a noite”, imediatamente começa a procurá-la pela chão. Curioso, atento a tudo, nada lhe escapa. Esteja onde estiver, no meio de uma ação importante, se passa um avião, ele pára tudo para se deliciar com aquela passagem súbita. Ele quer se divertir, mas não busca provocar o riso, este nasce “…como consequência do choque entre seu espírito e sua lógica, por um lado, e os da sociedade e dos demais, por outro” (Jara, s/ data, p.74).

Waldemar Seyssel, o palhaço Arrelia, representante de tradicional família circense e um dos mais importantes representantes brasileiros da nobre arte do palhaço, escreveu uma biografia em que fala de sua família, a iniciação como artista circense entre irmãos e  primos, o momento em que se torna palhaço, em substituição ao pai o palhaço Pinga-pulha, e muitos casos da vida circense. Fala das serestas de cidade em cidade – ele tocava flauta e os irmãos violino – e de sua fama de conquistador. “Em cada cidade em que o circo chegava, eu arranjava uma namorada… e bonita. Elas gostavam do palhaço. As mulheres gostam de todo homem que as faz rir” (Seyssel, 1997, p.40).

Arrematando seu texto – e eu, aqui, o meu -,  Clarice Lispector sentencia: – “É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo”  (Lispector, 2010, p.55).

Referências Bibliográficas:

CASTRO, Alice Viveiros. O Elogio da Bobagem – Palhaços no Brasil e no Mundo. Rio de Janeiro: Família Bastos Editora,  2005.

LISPECTOR, Clarice. Clarice na cabeceira. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

LIBAR, Marcio. A Nobre Arte do Palhaço. Rio de Janeiro: edição do autor, 2008.

LECOQ, Jacques. O Corpo Poético. São Paulo: Editora Senac e Edições Sesc, 2010.

POSSOLO, Hugo. Palhaço Bomba. São Paulo: Parlapatões, 2009.

SEYSSEL, Waldemar. Arrelia, uma biografia. São Paulo: IBRASA, 1997.

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